Na maioria das vezes, a caneta para emagrecer é um tratamento de longo prazo, porque a obesidade é uma doença crônica: quando o remédio é suspenso sem planejamento, boa parte do peso perdido tende a voltar. Isso não quer dizer usar para sempre do mesmo jeito. A dose, o ritmo e até a retirada vão sendo ajustados na consulta, de acordo com a sua evolução.
Essa é uma das perguntas que eu mais escuto no consultório, aqui em Sobral. E a resposta honesta é: depende de você, do seu corpo e do momento em que você está. É por isso que eu trabalho com medicina do estilo de vida junto com o tratamento da obesidade.
Por que a obesidade é tratada como doença crônica?
Porque ela não desaparece quando o peso cai. A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026, da ABESO, descreve a obesidade como uma doença crônica, multifatorial e recidivante, e fala na necessidade de tratamento continuado e de longo prazo na grande maioria das pessoas.
Isso explica por que o corpo resiste tanto depois que você emagrece. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine (Sumithran e colaboradores, 2011) acompanhou pessoas que perderam peso e viu que, um ano depois, a grelina, o hormônio da fome, continuava mais alta, e a leptina, que ajuda na saciedade, continuava mais baixa do que antes do emagrecimento. A fome também seguia maior.
Por isso eu sempre digo: quando o peso volta, não é sobre você. É sobre um mecanismo, um metabolismo adoecido, que vai tentar voltar ao ponto de antes.
O que acontece quando a caneta é suspensa?
Os estudos com as canetas mais usadas hoje mostram o mesmo caminho: quem para o remédio tende a recuperar boa parte do peso.
- Semaglutida, estudo STEP 1: um ano depois de parar o remédio, as pessoas recuperaram cerca de dois terços do peso que tinham perdido (Wilding e colaboradores, Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022).
- Semaglutida, estudo STEP 4: em 48 semanas, quem continuou com o remédio perdeu mais 7,9% do peso; quem trocou para placebo ganhou 6,9% (Rubino e colaboradores, JAMA, 2021).
- Tirzepatida, estudo SURMOUNT-4: em 52 semanas, quem continuou perdeu mais 5,5%; quem trocou para placebo ganhou 14% (Aronne e colaboradores, JAMA, 2024).
E não volta só o peso. Nesses estudos, cintura, pressão e outros marcadores de saúde pioraram junto com o reganho (Horn e colaboradores, JAMA Internal Medicine, 2026).
Então eu nunca vou conseguir parar?
A retirada é muito individualizada. Na minha prática, vejo três caminhos:
- A maioria precisa manter o tratamento a longo prazo. Algumas pessoas têm uma carga genética mais expressiva para a obesidade e vão precisar da medicação a vida inteira.
- Muitas conseguem diminuir. Quando a alimentação, a atividade física e o sono mudam de verdade, muitas vezes a gente consegue reduzir a medicação, e a pessoa fica bem.
- Poucas conseguem retirar. E isso é exceção: só acontece mantendo todos os hábitos saudáveis.
Não é usar sempre do mesmo jeito. O tratamento vai sendo ajustado, assim como a alimentação, os suplementos e os hormônios são ajustados conforme o momento. Precisa ter todo um contexto.
O que ajuda a manter o peso, com ou sem a caneta?
A medicação é um dos pilares do tratamento da obesidade, e tão importante quanto os outros. Mas, sozinha, ela não faz efeito. Os outros pilares você encontra no texto sobre o que a medicina do estilo de vida pode fazer pela sua saúde. A própria diretriz da ABESO recomenda que a mudança de estilo de vida aconteça junto com o remédio.
As pacientes que mantêm o peso são as que mantêm todos os pilares ativos:
- alimentação saudável;
- atividade física constante;
- sono como prioridade, com pelo menos 7 horas por noite, que é o que recomendam a Academia Americana de Medicina do Sono e a Sleep Research Society. O sono pesa na manutenção: num estudo com adultos que tinham acabado de emagrecer, quem dormia menos de 6 horas por noite recuperou cerca de 5 kg em um ano, mais do que quem dormia o suficiente (Bogh e colaboradores, Sleep, 2023);
- intestino funcionando bem;
- emoções cuidadas, como a ansiedade e a compulsão alimentar;
- hormônios e vitaminas ajustados.
E tem um ponto que quase ninguém fala: as pacientes que mantêm o peso têm constância nas consultas. A maioria das pessoas, quando chega no peso esperado, some do acompanhamento. Só que a manutenção é a fase mais importante, porque é nela que o seu corpo vai fazer de tudo para voltar ao peso de antes. Manter exige atitude e acompanhamento.
A boa notícia é que manter fica mais fácil com o tempo. Um estudo com pessoas que já tinham emagrecido e mantido o peso mostrou que quem mantinha havia menos de 2 anos tinha mais risco de voltar a engordar do que quem já mantinha havia 2 anos ou mais (McGuire e colaboradores, Journal of Consulting and Clinical Psychology, 1999). Uma revisão dos mesmos pesquisadores reforça: depois de 2 a 5 anos mantendo, a chance de continuar mantendo aumenta muito (Wing e Phelan, American Journal of Clinical Nutrition, 2005). Por isso eu penso o tratamento da obesidade em anos, e não em meses.
Se quiser entender melhor cada pilar, escrevi sobre os pilares da medicina do estilo de vida no controle do peso feminino.
Posso usar a caneta por conta própria?
Não. Usar caneta para emagrecer, ou qualquer remédio para obesidade, por conta própria é um dos maiores riscos que você pode trazer para a sua saúde.
Cada corpo pede um tratamento diferente. Tem gente que precisa de semaglutida, tem gente que responde melhor à tirzepatida, dependendo do metabolismo, da genética e de quanto peso precisa perder. Quem tem compulsão alimentar e ansiedade precisa de um tratamento também diferente. Tem quem comece com uma dose e precise aumentar, e tem quem não precise. O melhor tratamento para uma paciente pode ser péssimo para outra.
A Anvisa alertou em fevereiro de 2026 que o uso fora das indicações da bula aumenta o risco de pancreatite, e que esses remédios só devem ser usados com receita e acompanhamento. A diretriz da ABESO também não recomenda fórmulas manipuladas para tratar obesidade.
Tratamento de obesidade não se faz com achismo. Existe ciência por trás, com estudos de segurança e de eficácia, e ela precisa ser respeitada.
Quando procurar o médico
- Antes de parar a caneta ou mudar a dose por conta própria.
- Se aparecer dor abdominal intensa e persistente, que pode ir para as costas, com náusea ou vômito: procure atendimento médico imediato (alerta da Anvisa).
- Se você chegou no peso que queria e não sabe como manter.
- Se o peso começou a voltar depois de parar o tratamento.
Perguntas frequentes
Posso parar a caneta de uma vez?
Não faça isso sem conversar com o seu médico. A redução e a retirada são decididas caso a caso, olhando o seu peso, os seus exames e como estão os seus hábitos.
Se eu parar e voltar a engordar, posso retomar?
Essa decisão é feita em consulta. Voltar a ganhar peso não é fracasso seu: é a biologia da obesidade agindo, e por isso ela precisa de acompanhamento contínuo.
Existe um tempo mínimo de uso?
Não existe um prazo igual para todo mundo. O tempo depende de como o seu corpo responde e de como estão os outros pilares do tratamento.
A caneta resolve sozinha?
Não. A medicação é um dos pilares. Sem alimentação, atividade física, sono e emoções cuidadas, o resultado não se sustenta.
Quer conversar sobre o seu tratamento?
Se você usa ou pensa em usar caneta para emagrecer, a melhor decisão é a que leva em conta a sua história. Atendo em Sobral e online, com consulta sem pressa e acompanhamento ao longo do caminho. Fale com a equipe pelo WhatsApp.
Dra. Samille Frota, médica endocrinologista · CRM-CE 11269 · RQE 6217
Atendimento em Sobral, CE, presencial e online.
Publicado em 1 de novembro de 2026 · Revisado em 1 de novembro de 2026Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.



